Z.M.

 

 

            Z.M. é um menino de nove anos que não conhece o que seja liberdade. Seu pai bebia muito, e quando bêbado costumava bater na mulher, depois saía e gastava o restante do dinheiro com prostitutas numa região da cidade conhecida como boca do lixo. Ele trabalhava catando papelão nas ruas para vendê-lo por poucos reais e brigava com a mulher porque ela não ia ajudá-lo pois estava grávida e não conseguia andar muito. Nessas brigas dizia que não queria aquela criança, xingava e batia na mulher. Foi assim que uma vez, após bater na esposa, faltando cerca de um mês para o nascimento do filho, abandonou a família com outra mulher, uma prostituta que também vivia nas ruas. Desde aquele dia nunca mais reviu a mulher ou sequer deu-lhe notícias.

 

            A mãe de Z.M., ao entrar em trabalho de parto, foi levada a um posto de saúde por policiais que teve a sorte de encontrar naquele momento. O hospital público mais próximo estava em greve e Z.M. nasceu ali mesmo. Depois de três dias voltaram para as ruas, agora mãe e filho. Ela começou a praticar pequenos furtos, para que pudessem ter algum dinheiro para sobreviver, só que esses furtos passaram a ser mais e maiores. O fundo do poço foi quando envolveu-se com drogas, aí chegou ao ponto de abandonar o filho na rua e fugir sem rumo certo; mas o rumo de sua caminhada já não importava para sua vida sem rumo.

 

            Durante a ronda noturna, a polícia encontrou a criança sozinha, envolta em jornal, dormindo na calçada com a inocência estampada no rosto. A mãe aproveitara o sono de Z.M. para fugir enquanto o frio da noite assolava o menino. Sem encontrar ninguém por perto, os policiais levaram a criança para o distrito policial de onde, pela manhã, foi encaminhada para o Juizado de menores, permanecendo sob a guarda deste e sendo criada em um orfanato. Um mês depois os policiais avisaram o Juizado do paradeiro da mãe, baseados na sua confissão de ter abandonado o filho. Ela não pôde reassumir o menino e foi condenada a dezoito anos de prisão por roubo.

 

            O juizado procurou uma família que pudesse adotar Z.M. mas não encontrou, ficando responsável pela criação do menino, que nunca soube o que é uma família, o amor de um pai ou de uma mãe, completamente ignorante quanto as coisas existentes no mundo, criado entre creches e orfanatos, em meio a quatro paredes que pareciam que a qualquer momento poderiam cair sobre sua cabeça.

 

            Tanta desgraça e infelicidade fez de Z.M. uma ciança revoltada, desanimada e insociável. Em sua mente só havia ódio e ira pela vida que levava. Ele não acreditava mais no que pudesse ser alegria, não acreditava que as coisas pudessem mudar; nem para melhor, pois pensava ser impossível, nem para pior, pois o que poderia ser pior?

 

            Quando uma mão lhe acarinhava tinha desconfiança, não acreditava em carinho ou amor; se nunca haviam lhe dado, nem seus pais, como o teria agora? Por trás de cada rosto feminino via os olhos de alguém que não se lembrava, por causa da pouca idade, mas sentia a dor  que lhe causara, e como doía-lhe este sentimento de abandono e de rejeição.

 

            Duvidava dos sentimentos das pessoas, duvidava do palpável, falar-lhe em avião, elevador, celular, ele não conhecia. Quando olhava para a lua, desprezava os que lhe contaram que o homem já havia ido até lá, achava-se enganado, como seu pai o havia enganado e depois sua própria mãe.

 

            Cada lembrança de Z.M. era acompanhada por uma desgraça e revolta, não conseguia mais confiar ou acreditar em ninguém e às vezes em coisa nenhuma, exceto aquilo que lhe fosse palpável. Desta maneira, não conseguia nem sequer ser ajudado, todo acompanhamento psicológico foi em vão, ele não confiava, tinha medo do que pudesse acontecer com ele e não acreditava nos psicólogos. Na verdade, para ele as pessoas eram todas iguais: traidoras, insensíveis e desumanas.

 

            Esta prisão mental em que Z.M. se trancou acabou lhe trazendo uma trágica conseqüência: antes de completar dez anos ele foi transferido do orfanato para uma clínica de loucos. Apenas um menino, mas completamente louco, sem acreditar num futuro, sem acreditar em nada, sem acreditar em crer, sem crer na loucura, louco.

 

 

Filippo Valiante Filho

2º semestre de 1997