2038

 

 

            Estamos em 2038 e o calendário já não mais tem folhas. O progresso tecnológico é assustador e os homens se confundem com as máquinas. Não posso dizer se é porque as máquinas praticamente pensam ou se é porque o homem perdeu os sentimentos, e agora vive mais gélido de coração que as máquinas, já que elas ainda mantém um sorriso e uma expressão mecatrônicas entre seus chips.

 

            Apenas uns poucos, ahn, como diziam mesmo quando eu era pequeno, uns poucos heróis da resistência usam essa antiquada máquina com nome horroroso chamada de microcomputador para manter seus diários. E este que vos escreve é um desses imbecis que não aproveitam a tecnologia ciborg que já nos foi incorporada, mas quem sabe fique mais acessível para a posteridade nalgum desses museus que mostram aquelas coisas atrasadas do século passado.

 

            Mudando de referência, tenho procurado meu filho por 2 semanas, durante todo o dia. Cheguei até a me arriscar a sair de noite, apesar da proibição e do toque de recolher. Ontem consegui escapar de um robô da fábrica estatal de alimentos, mas estou com uma ferida aberta na perna, por causa da garra da máquina. Não posso procurar auxílio, porque se fizer isto serei condenado.

 

            Já acho que meu filho foi tomado pelos centros de criação do governo e passará a seguir as ordens do chefe das nações. Eles o farão esquecer que sou seu pai e o educarão para perder os sentimentos. Ele será mais um humanóide desalmado e assassino, capaz de comer a própria carne humana dos mortos na noite pelos robôs da fábrica de alimentos. Isto se ele... se ele já não tiver virado um pedaço de carne nos refeitórios das fábricas sujas desses subúrbios assustadores. Ou tiver sido levado no último aprisionamento de posssíveis extraterrestres como as forças de guerra dizem que existem.

 

            Estou desesperado, a humanidade perdeu os sentimentos desde que um terço da população foi disimada, além daquela multidão que desapareceu de uma vez no ar. Então começaram as catástrofes, e as armas e a tecnologia que plantamos se revoltaram contra o homem por suas próprias mãos. O chefe das nações assumiu o controle do planeta pela força e pela violência e ordenou que amor, felicidade e paz fossem pura e simplesmente transformados em prazer, risos e morte. Não podemos mais ficar fora dos abrigos nucleares a noite sob pena de morte. As câmeras do exército vigiam todos os lugares públicos o tempo todo e qualquer desobediência pode ser paga com a própria vida. Ela já não tem mais valor, o homem virou alimento dos humanóides da 4a década deste século.

 

            Agora que meu filho desapareceu já não tenho ninguém, apenas alguns milhares de microchips e robôs que ainda sobrevivem dentro da redoma da cidade. Fomos atacados pelo exército do chefe das nações como punição pela rebeldia de parte dos humanóides. Agora a redoma está danificada e a radiação começa a trazer o câncer e corroer os metais, talvez haja tempo de isolar a radiação se não houver outro ataque, ou passaremos a queimar como o resto do planeta fora das redomas.

 

            Minha única fuga seria encontrar meu filho e fugir para as novas colônias na órbita de Marte mas meus comunicadores implantados não funcionam mais. E meu filho eu escondi para que não fosse tomado de mim e transformado em mais um ciborg com esses microchips na cabeça. Eles agora falham, porque não gosto deles e não sei o que acontecerá comigo, ou o que acontecerá com esse planeta que já se chamou Terra.

 

            Seria bom se os montes caíssem e o solo fende-se acabando com tudo de uma só vez, assim a humanidade acabaria de uma vez. Se tivesse a quem, pediria socorro, mas os últimos que pronunciaram a palavra esperança desapareceram de uma só vez há alguns anos. O planeta está em contagem regressiva para morrer. Parece que dessa vez chegou o fim.

 

 

Filippo Valiante Filho

14 de Julho de 1999.

 

 

            P.S. - Esta é uma estória de ficção, mas qualquer semelhança dessa carta com alguma que será escrita em 2038 não será mera coincidência, será o Apocalipse que poderá estar se cumprindo. Quem quiser viver para ver, morrerá, mas quem viver para A Vida, A Vida viverá (S.João cap.14, vers. 6).